
segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
domingo, 22 de Novembro de 2009
sábado, 21 de Novembro de 2009
sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
DICIONÁRIO DE ESCRITORES - BOWLES, Paul

O marroquino deixou sobre a mesa o copo alto com o chá de menta e uma taça com os cubos de açúcar. Retirou-se com uma espécie de vénia demonstrativa de um respeito que as meras palavras não saberiam expressar. Paul olhou para o copo alto e esguio, elegante, que continha o líquido acastanhado no qual flutuvama folhas e caules de hortelã. Alguns desses caules ainda permaneciam agarrados às raízes das quais se desprendiam pequenas partículas do solo que as tinha sustentado.
O Café Paris era um oásis de tranquilidade no meio da agitada rua árabe, vibrante de vida na luz intensa do meio-dia. Ao contrário do que poderíamos ser levados a pensar, Paul Bowles não apreciava excessivamente os oásis, sabendo como sabia que não existe nenhum oásis onde possamos permanecer para sempre ao abrigo das tempestades. Aliás, o oásis pode ser uma justa metáfora da nossa precária condição: expostos aos elementos, a todas as agressões do exterior, momentaneamente encontramos um canto sossegado onde podemos lamber as feridas e ganhar fôlego para a nova investida. Mas nesse canto, tal como o "boxeur" castigado até ao cerne pelo seu adversário, só podemos permanecer no curto espaço de tempo enre os "rounds": o gongo atirar-nos-à de novo para o centro do ringue onde não poderemos escapar à carga brutal dos punhos que apostam tudo na nossa derrota.
Agora é um ancião, uma sombra do homem esbelto e elegante que, quarenta anos antes, tinha desembarcado em Tânger pensando ter encontrado o oásis. De facto, nunca mais abandonaria essa cidade que para ele não tinha segredos ou, se os tinha, eram daquele género de segredos que toda a gente conhece e que, só por isso, continuam a ser segredos.
Mirou-se no espelho da parede em frente: um mar de rugas, um oceano de cabelos brancos num fato de linho que acusava já o peso das décadas, uns olhos azul-pálido como os olhos de certos cegos que parecem ver, embora nada vejam. Pelo contrário, os seus olhos viam tudo e viam para além das aparências, dos fenómenos da cidade árabe, francesa, espanhol, portuguesa que Tânger era ou fingia ser.

Debra Winger não entrou perdida no café, mas Paul sabia que, atrás de si, se situava a porta por onde ela poderia escapar caso entrasse, ou quando entrasse. Isto, se não morresse antes, ele o único homem capaz de guiar para fora do labirinto do mundo e para dentro do oásis, para o canto de abrigo que se esconde nas traseiras do Café de Paris, no Pequeno Soco, Tânger, Marrocos.
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
CRÓNICA PARA O CARLOS LOPES

LES 400 COUPS
François Truffaut
França 1959
Emblemático a muitos níveis, a estreia de Truffaut na longa-metragem não podia ter sido mais auspiciosa. Arrebatando o troféu para a melhor realização no Festival de Cannes de 1959, o mundo percebe que a “nouvelle vague” veio para ficar. O, até então, controverso e radical crítico de cinema, ascende rapidamente ao estatuto de “anjo consensual”, epíteto que jamais abandonaria até ao fim da sua carreira. Para isso bastou apresentar a história de Antoine Doinel de acordo com os novos métodos de filmar. Assim, durante cerca de uma hora e meia vamo-nos enternecendo com o caminho de um jovem empurrado por todas as injustiças, obrigado a reagir e, ao fazê-lo a excluir-se de um mundo que o excluiu muito antes de nascer. Obcecado com a sinceridade e espontaneidade das imagens, Truffaut passeia a câmara por uma Paris de cenários naturais, sem artifícios plásticos, em movimentos rápidos e inquietos “como o olhar de uma criança”. Antoine, numa soberba interpretação estreante de Jean- Piérre Léaud, vê-se confrontado com três vertentes essenciais da sua vida: Família, Escola e Lei, personificados por gente mesquinha, medíocre e egoísta, cujo comportamento o empurra inevitavelmente a fazer “trinta por uma linha” (esta a expressão correcta do título original do filme). Vivendo em condições precárias com a mãe o padrasto, vamos sabendo ao longo do filme que o seu nascimento não foi desejado. Mais tarde, numa fuga às aulas para um passeio com o amigo em Paris, surpreende a mãe com um colega do trabalho. Na escola é castigado pelas razões erradas. Tudo se precipita com a visita da mãe à escola. Antoine tinha dito que havia faltado porque ela tinha morrido. A culpa e o medo passam a ser os seus companheiros antes sequer de lhe pertencerem. Antoine não tem uma única ponte que o integre na vida, seja no cenário degradado da sua casa, na incompreensão da escola ou na confrontação com a lei. A casa de correcção é só o ponto culminante da indiferença colectiva que família e sociedade lhe ofereceram ao longo da curta existência. Segue-se a fuga e a cena final em frente ao mar. Entre o mundo e mar, Antoine está encurralado, sem saída.
Filme de uma ternura assustadora, LES 400 COUPS é também um pouco autobiográfico na medida em que o próprio realizador foi uma criança problemática resgatada do reformatório por André Bazin (um dos mentores mais importantes dos cineastas da “nouvelle vague”. Para Truffaut, a alternativa ao cinema teria sido a marginalidade e a morte precoce nas teias do crime. A sua obra é um alvo fácil de paixão e admiração na medida em que, dentro dos cenários mais negativos, injustos e adversos, o elemento humano vem ao de cima enquanto esplendor de inocência e solidariedade. Sem deixar de analisar a realidade na sua forma mais cruel e perniciosa, a casa negra descobre sempre uma criança dentro de um armário pronta para secar as suas lágrimas. A qualidade dos seus filmes está patente na actualidade com que os conseguimos (re)ver 30 e 40 anos depois. Para os mais distraídos com a obra de Truffaut, LES 400 COUPS é um excelente princípio para descobrir uma obra fantástica.
Artur
domingo, 15 de Novembro de 2009
sábado, 14 de Novembro de 2009
sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
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